A nobreza de sangue desapareceu, engolida com os seus hereditários privilégios Ancien Régime, no turbilhão da Revolução Francesa e nas ondas que dela resultaram por toda a Europa. A nós, portugueses, os salpicos da liberdade tocaram-nos em 1820 e por pouco não rebateram no capote de beatos iletrados e brutos.
Chegados ao início de novo milénio, eis que regressa uma nova espécie de nobreza. Não é a linhagem, o sangue que a identifica, ainda que a tendência hereditária se mantenha. Não se pode vangloriar de grandes feitos guerreiros, de avós impulsivos no terçar de lança e espada, nem sequer de bravura por aí além na era da bala e pólvora. Esta tem origem plebeia, os seus antepassados comungaram na doce ilusão de serem detentores de uma intangível soberania que, dizia-se, em todos assentava e de todos emanava. A Nação, essa romântica determinação de igualdade abstracta, capaz de diluir o mais quadrado grunho no refinadíssimo poeta, serviu de embalo a muitos desvarios. Estrangulou a liberdade sempre que pôde - ah, como nisso foi fértil o século XX! - e dela foi necrófaga quando os ventos sopraram de feição.
A nova nobreza, emergente do anonimato da turba que, em tempos, se embriagara noutra ilusão, a da liberdade, à falta de bravura e de linhagem construiu o seu empório na especulação, na finança, na política, nos jogos rasteiros de interesses. Armada de mesquinhez e espírito inquisitorial, foi trepando ao Olimpo do poder. Apropriou-se e ainda se apropria do Estado. Impõe-lhe dieta, mas continua a alimentar-se dos seus recursos com avidez digna de Baco. E decepando a autoridade central, com a mesma tranquilidade com que apregoa a legitimidade conferida pela Nação em votos, vai desfazendo o que ainda resta da res publica, do bem comum, fragmentando-o ao sabor de múltiplos micro-poderes. É o novo feudalismo dos poderosos em marcha.
O último parágrafo está brilhante! Não te demarques deste blogue. O outro atrai as pessoas da tua área. Este chega até nós, guilhotina afiada e certeira, com uma escrita exímia.
Bjs
Comentário por Elsa — Maio 29, 2008 @ 12:24 pm
Obrigado, amiga!
Tivesse eu a facilidade de escrever como tu, não seriam tão esporádicos os meus posts. Mas o outro “monsieur” teclava à flor da raiva e já não me identificava com ele…
Bjs
Jorge
Comentário por monsieurdeguillotin — Maio 30, 2008 @ 11:37 pm