Monsieur de Guillotin

Maio 2, 2008

Feudalismo – para quem sabe ler nas entrelinhas

Arquivado em: Portugal, democracia formal, jobs for the boys, portas giratórias — monsieurdeguillotin @ 6:19 pm

A nobreza de sangue desapareceu, engolida com os seus hereditários privilégios Ancien Régime, no turbilhão da Revolução Francesa e nas ondas que dela resultaram por toda a Europa. A nós, portugueses, os salpicos da liberdade tocaram-nos em 1820 e por pouco não rebateram no capote de beatos iletrados e brutos.

Chegados ao início de novo milénio, eis que regressa uma nova espécie de nobreza. Não é a linhagem, o sangue que a identifica, ainda que a tendência hereditária se mantenha. Não se pode vangloriar de grandes feitos guerreiros, de avós impulsivos no terçar de lança e espada, nem sequer de bravura por aí além na era da bala e pólvora. Esta tem origem plebeia, os seus antepassados comungaram na doce ilusão de serem detentores de uma intangível soberania que, dizia-se, em todos assentava e de todos emanava. A Nação, essa romântica determinação de igualdade abstracta, capaz de diluir o mais quadrado grunho no refinadíssimo poeta, serviu de embalo a muitos desvarios. Estrangulou a liberdade sempre que pôde – ah, como nisso foi fértil o século XX! – e dela foi necrófaga quando os ventos sopraram de feição.

A nova nobreza, emergente do anonimato da turba que, em tempos, se embriagara noutra ilusão, a da liberdade, à falta de bravura e de linhagem construiu o seu empório na especulação, na finança, na política, nos jogos rasteiros de interesses. Armada de mesquinhez e espírito inquisitorial, foi trepando ao Olimpo do poder. Apropriou-se e ainda se apropria do Estado. Impõe-lhe dieta, mas continua a alimentar-se dos seus recursos com avidez digna de Baco. E decepando a autoridade central, com a mesma tranquilidade com que apregoa a legitimidade conferida pela Nação em votos, vai desfazendo o que ainda resta da res publica, do bem comum, fragmentando-o ao sabor de múltiplos micro-poderes. É o novo feudalismo dos poderosos em marcha.

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